Um recomeço para a presidência Trump

Modo Noturno

Eu apostaria que você, sim, você mesmo lendo isso agora, provavelmente foi surpreendido negativamente com a demissão de Steve Bannon do cargo de estrategista-chefe da Casa Branca. Tido como o herdeiro de Andrew Breitbart, Bannon é um símbolo da direita anti-establishment, cansada de ter seus interesses negados pelos representantes elegidos para defende-los. Em outras palavras, provavelmente a maioria do público leitor deste site.

Muitos consideram Bannon uma peça chave na campanha vitoriosa de Trump, alguém que conseguiu acertar o tom da retórica rebelde para maximizar o efeito das palavras do então candidato. E isso provavelmente é verdade, não há dúvidas de que o ex-diretor do Breitbart foi essencial na reta final da campanha.

Mas todos os principais pontos que alavancaram Trump à indicação republicana e consequentemente ao posto de homem mais poderoso do mundo já havia sido escolhido e detalhado por ele mesmo, mais de um ano antes de Bannon se juntar à campanha.

A verdade é que Bannon é um ótimo idealista, perfeito para a imprensa e a guerra cultural, mas que não combina com o dia-dia da política. Desde a posse em janeiro, relatos de dentro da Casa Branca descreviam o então estrategista-chefe com um estilo agressivo, passando por cima dos outros para garantir o melhor lugar ao ouvido do presidente. E quando a sua influência foi se esvaindo, Bannon passou a articular por fora, muitas vezes se aliando a pessoas cujos interesses não refletiam os de Trump, tudo para manter o seu lugar. Os vazamentos à imprensa pró-Trump se tornaram constantes, sempre retratando Bannon como uma vítima honrada, um idealista cuja lealdade estava apenas com o seu país e não alinhada aos interesses “globalistas”.

Roger Stone, que ontem havia escrito um manifesto à favor da saída de Steve Bannon, o descreveu como alguém com uma agenda própria, incapaz de sacrificar capital político para avançar os interesses do governo e seus aliados. Em outras palavras, um empecilho. Até onde Stone, que é amigo e confidente de Trump há décadas, escreveu o artigo sob orientação de alguém na Casa Branca, ninguém sabe. Mas é fato que há meses Bannon não agradava a ninguém – nem a seus opositores nem àqueles que compartilham da sua visão de mundo.

O fim da relação tem tudo para se provar benéfico para ambos os lados. Trump se vê livre de uma das últimas peças remanescentes de sua campanha insurgente, e agora se vê sem amarras, pronto para montar uma equipe experiente e capaz de ajudar o governo a engrenar de vez. O uso de Bannon expirou e o que Trump precisa agora é de nomes como o secretário de defesa James Mattis, que possam adaptar a agenda do presidente à realidade da política, da maneira mais eficaz e eficiente possível, sem trair os interesses pelos quais o bilionário foi alçado à presidência por milhões de votos.

Chega de conspiração, joguinhos de poder, chega de “deep state”, globalistas e vazamentos. Com os constantes ataques terroristas islâmicos, a tensão na península coreana, a morte da democracia na Venezuela, a relação abalada com o congresso e a separação ideológica que divide os Estados Unidos, Trump precisa da melhor equipe possível para o trabalho – não necessariamente a mais pura ideologicamente -, para garantir que a desastrada gestão interna da Casa Branca não o impeça de fazer o que é certo quando a hora decisiva chegar.

Complexo
Criador do Loly.