Politicamente onde estariam hoje as gêmeas de Operação Cupido?

Modo Noturno

Somente 90’s kids vão saber que o remake de 1998 de Operação Cupido (The Parent Trap), clássico live-action da Disney, é a versão superior do atemporal conto de gêmeas separadas no nascimento reunindo seus pais divorciados. Responsável por apresentar ao mundo o descarrilhamento de trem humano conhecido como Lindsay Lohan, o filme traz a marca registrada de sua diretora, Nancy Meyers – o registro charmoso da vida maravilhosa dos super-ricos. Mas não estamos aqui pra falar disso.

Lohan interpreta Annie e Hallie, ambas de 12 anos. A primeira foi criada pela mãe (Emma Thompson), uma famosa estilista de vestidos de noiva na Inglaterra, e a segunda pelo pai (Dennis Quaid), dono de um próspero vinhedo californiano. Seguindo a fórmula do clássico dos anos 60, as duas são tão diferentes uma da outra quanto seus progenitores. Annie é educada, estudiosa e classuda enquanto Hallie é desleixada, rebelde e abusada.

Duas horas de pessoas ricas sendo ricas e no fim, as duas irmãs conseguem inspirar os pais a reatarem o casamento. Montagem de fotos do segundo casamento durante os créditos e fim.

Mas e se o filme não terminasse por aí? E se pudéssemos conferir como as gêmeas James-Parker estão hoje, 19 anos depois? Ambas teriam 31 anos e nenhum pingo de preocupação com seu futuro financeiro, o que lhes deixaria com bastante tempo livre para perseguir outras paixões – talvez na política.

Vamos começar pela inglesinha Annie. Depois de estudar nos melhores colégios e universidades do mundo, Annie teria as conexões necessárias para entrar na arena política pela porta da frente, caso assim escolhesse. E se a sua personalidade no filme serve de pista, traria com si um forte senso de excepcionalismo britânico. Em tempos de euroceticismo, forçada a escolher entre a independência de Londres e a sola da bota de Bruxelas, Annie com certeza teria apoiado o Leave no referendo da Brexit, talvez mais por razões culturais do que simplesmente migratórias ou econômicas. Tradicionalista e competitiva, das duas ela é a mais provável de ter se candidatado a algum cargo público, com certeza representando o Partido Conservador, talvez até inspirada por outra famosa Tory ruiva.

Do outro lado do oceano, a história é diferente. As personalidades opostas das gêmeas com certeza não deixariam de se manifestar na política. E podemos culpar Hallie? Afinal ela seria somente uma consequência de seu ambiente. Rica e despreocupada, a gêmea da Califórnia com certeza logo acharia uma causa para chamar de sua. Seja direito dos animais, imigrantes ilegais ou a opressão sofrida pelas manas devido ao malvado patriarcado, Hallie seria figurinha carimbada nos protestos e marchas por causas sociais. Seu status garantiria que ela estudasse e frequentasse as mesmas festas de jovens famosos que, desesperados para se firmarem na indústria de Hollywood, jamais ousariam pisar fora da linha ideológica pintada pela grande mídia e executivos de estúdios.

O amor juvenil pela fotografia talvez levasse Hallie para uma carreira artística ou jornalística, dois caminhos que a levariam inevitavelmente para o progressivismo. Põe na mistura uma pitada de rivalidade com a irmã conservadora e talvez um sentimento de culpa pela mão de obra barata e ilegal que o pai empregava em seu vinhedo e temos 99.9% de certeza do resultado. Aos 31 anos em 2017, Hallie seria velha demais pra sair por aí com o cabelo tingido de azul e batom preto, mas estaria na idade certa pra trabalhar num BuzzFeed News da vida, onde usaria seu senso de humor ácido e seu selo de conta verificada no Twitter pra encher de amor as replies dos tweets do “Not my President” todos os dias.

Porém, há um elemento que não estamos considerando – a infalível Teoria do Pai Ausente. Apesar de ter no avô uma tradicional figura paternal, Annie teria sido a que passou a infância sem um pai pra chamar de seu e é séria candidata a desenvolver daddy issues tendo que dividir o pai que nunca teve com sua possessiva gêmea idêntica que possui com ele um laço emocional e intimidade que ela jamais conseguirá igualar. Sim, a mãe Elizabeth é retratada no filme como um modelo de feminilidade e sua profissão como designer de vestidos de noiva reforça o papel tradicional dos gêneros, mas nem toda feminista sai por aí desarrumada e sem tomar banho. Annie podia muito bem se tornar uma Emma Watson.

Hallie, no entanto, só tem a presença do pai que poderia lhe impedir de se tornar uma uber-liberal. Sua geração – ela é uma millennial afinal -, o estado em que vive e sua situação financeira todas apontam para o mesmo caminho. A não ser que o espírito rebelde e desgosto pelas regras lhe aproximasse mais de Trump do que do politicamente correto. Afinal, no mais azul dos estados americanos, ser mais um Smurf é tudo que o sistema instalado no poder quer que você seja.

Certeza mesmo só temos uma – elas não terminando como a sua intérprete na vida real já estaria de bom tamanho.

OU SERÁ QUE NÃO?