O silêncio da mídia prova que a narrativa russa está morrendo

Modo Noturno

Se você presta atenção nas maquinações da mídia mainstream americana, com certeza se deu conta de um certo silêncio ensurdecedor que tomou conta das páginas de sites e chamadas de televisão essa semana… Os russos desapareceram.

Assim como uma narrativa coordenada pipoca aparentemente do nada com muito barulho, ela também some silenciosamente assim que desaba na face de seus proponentes. Os sonhos da mídia de um novo Watergate estão enterrados e a narrativa russa resta praticamente morta, fatalmente ferida pelo magrelo de voz fina que come melhor do que nós jamais iremos nas próximas cinco encarnações – Jared Kushner.

Sim, foi o polêmico “marido da Ivanka”, visto com desconfiança pelos dois extremos do espectro político, que deu o mais forte golpe na narrativa de colusão com a Rússia durante o seu depoimento ao congresso, com um relato contundente e embasado dos supostos “bombásticos” encontros de membros da campanha de Trump com representantes russos.

Sobre a reunião com a advogada Natalia Veselnitskaya, ele contou como chegou a mandar uma mensagem a sua assistente após apenas 10 minutos de conversa, pedindo para que ela o ligasse pra que ele pudesse criar uma desculpa para deixar a sala, descrevendo como logo ficou óbvio que a advogada – cujos “laços com o Kremlin” já haviam sido incrivelmente exagerados pela mídia – só estava ali para falar besteira e buscar apoio para os seus interesses.

Em outra passagem, Kushner conta como, após a campanha receber uma mensagem de congratulações pela vitória do presidente russo Vladimir Putin, ele teve que entrar em contato através de email com Dimitri Simes, do Center for the National Interest, perguntando o nome do embaixador russo para que eles pudessem agradecer a gentileza. Tudo isso comprovável através de registros de emails e mensagens.

A presença de Kushner na reunião com Veselnitskaya foi tratada como o clímax da narrativa russa pela mídia, pois finalmente o fio de provas circunstanciais chegava ao braço direito de Trump, membro de sua família, que trabalha ao seu lado na Casa Branca. Tudo estava pronto para o xeque-mate e, com a fé cega que trataram toda essa história, eles partiram pra cima com tudo.

Mas era tudo uma ilusão. O sonho de um Watergate trumpiano se esvaiu mais rápido que a certeza de vitória da Madame Presidente. Agora, só resta a fina esperança alimentada por figuras que querem aparecer na mídia. E assim, a mídia seguiu em frente, silenciosa sobre a narrativa falecida, voltando a focar num alvo antigo – a personalidade do presidente. Enquanto semana passada ainda tentavam pintar Trump como esse traidor maquiavélico que, com a ajuda dos malvados e todos-poderosos russos, conseguiu roubar uma eleição, hoje o retratam como um bufão descontrolado, um “rei louco, cuja corte não é uma presidência, mas uma doença que suga a vida das instituições democráticas americanas e deve ser ferozmente resistida se a nação a de sobreviver da forma que a conhecemos”.

Você pode não acreditar, mas eu acabei de citar palavra por palavra o parágrafo de abertura de uma coluna de opinião do Washington Post de ontem, redigida por Eugene Robinson, um jornalista assumidamente liberal que além do blog de Jeff Bezos também contribui para a MSNBC. Seu texto dá o tom da cobertura da mídia pelos próximos dias – uma narrativa velha, mastigada, mas que, aliada às ações aparentemente erráticas do presidente, costuma pegar.

Enquanto isso, a rotina continua. Repórteres continuam fazendo a sua ginástica mental para pintar procedimentos comuns como prova da falta de liderança de Trump, tendo ataques compulsivos a cada novo tweet e agindo a cada dia mais com a previsibilidade de um ideólogo comprometido com uma narrativa. O que, afinal, eles são.