É sem sentido que Bolsonaro lidere um novo PRONA

Modo Noturno

Não tire conclusões precipitadas por causa do título. Eu estava animado com a ideia de votar em Bolsonaro no ano que vem. Era ótimo pensar que alguém como ele será candidato a presidência da república. Afinal, Bolsonaro levanta várias bandeiras com as quais eu me identifico como um conservador, como o fim da educação sexual precoce nas escolas, um currículo menos tendencioso  no Ensino Médio, o armamento civil e um combate mais autoritário a violência. Contudo, nunca vi nada de inovador ou fantástico em seu discurso. Eu jamais senti como se ele me representasse plenamente no cenário político. Essa função sempre foi preenchida com êxito pelo ilustre Enéas Carneiro, fundador do PRONA original.

Enéas compreendia que o materialismo e o internacionalismo são os maiores males na civilização ocidental. Por isso, vendeu muitos dos seus bens e sacrificou o  seu casamento para fundar um partido que combatesse tanto a ideologia marxista quanto o liberalismo econômico. Ele não acreditava nesse sistema individualista, e muito menos nos rótulos de ”esquerda e direita”. Dizia que o verdadeiro embate é entre a globalização e o estado-nação. Dedicou sua vida para mostrar para os brasileiros que existe um plano diabólico, arquitetado por bilionários de fora do país, de drenar todas as nossas riquezas por meio da normalização da ideia de que os recursos devem ser entregues às forças invisíveis do mercado.

Hoje, dez anos depois de sua morte, um neoconservador como o Bolsonaro surge e planeja se apropriar do nome PRONA – com a permissão da inocente filha do finado Enéas – para defender o sistema econômico que o fundador do PRONA original tanto sofreu para combater.

Não há sentido nenhum em Bolsonaro liderar o PRONA. Enéas defendia um estado forte e interventor, e repudiava completamente o conceito de um estado mínimo. Em relação à economia, dizia que a única solução para o Brasil era a ruptura com o sistema financeiro internacional, já que, de acordo com suas deduções, a globalização econômica é uma farsa. Para o fundador do PRONA original, nós deveríamos criar a nossa própria moeda autônoma, que não teria relação alguma com o dólar. Deveríamos também trabalhar na construção de uma bomba atômica, que nos permitiria conversar ”de igual pra igual” com as potências mundiais.

Bolsonaro, por sua vez, prega justamente o oposto de tudo isso. Afirma que o estado deve ser mínimo e deve atuar apenas nas funções essenciais, além de defender uma economia liberal para o Brasil, fazendo negócios com o mundo inteiro e privatizando empresas estatais como a Petrobrás. No âmbito militar, defendeu que o Brasil deveria entregar o controle da base de Alcântra para os Estados Unidos, algo que foi visto por muitos como uma ameaça da nossa soberania nacional. Como se não bastasse, diz que nosso principal parceiro nas relações internacionais seria os Estados Unidos. Esse país, segundo Enéas, compra os recursos de países como o nosso da maneira mais perversa possível.

Tais divergências, no entanto, não impediram um bom relacionamento entre os dois no passado. Em sua vida política, Enéas chegou a elogiar Bolsonaro, que já era um parlamentar na época em que ingressou na vida política. E não é para menos. Bolsonaro é um homem que serviu ao exército e que tem seus méritos e, como um conservador, concorda com muitas das bandeiras levantadas por Enéas. Os dois lutaram juntos pelas mesmas causas. Contudo, suas visões de mundo e propostas são completamente diferentes. Não existe sentido nenhum em Bolsonaro liderar o PRONA.

O verdadeiro problema é que a maior parte das pessoas nem mesmo compreende a ideologia do PRONA e o quê de fato pregava Enéas Carneiro. Nem mesmo os segmentos da sociedade que dizem admirar Enéas compreendem verdadeiramente o seu discurso. E isso inclui o próprio Bolsonaro. Eles simplesmente batem palmas quando escutam as palavras do finado gênio porque gostam de ver alguém dizendo ser contra o aborto, dizendo que o comportamento homossexual não merece palmas e defendendo o armamento civil. Mas isso representa muito pouco das reais intenções de Enéas quando criou o partido. Ele era um visionário. Foi único. Sonhava com a marcha triunfal do nosso povo. E isso abrange questões intocadas pelos conservadores da ”direita” de hoje em dia.

Bolsonaro não é uma escolha ruim para as eleições de 2018. Ele, na minha opinião, é a melhor opção para ocupar a presidência. Afinal, é melhor ter no poder um conservador de motivação patriótica – embora mínima – do que um fantoche da ideologia marxista, que nada mais é do que um plano cujo objetivo final conduzirá à destruição da cultura humana e à ruína do mundo. Contudo, é incoerente – para não dizer vergonhoso – que ele entre na disputa com o partido erguido por Enéas Carneiro, como se fosse herdeiro de seu legado. Um desrespeito com o falecido, que não permitiria que isso acontecesse caso estivesse entre nós.