#CNNBlackmail: Como a CNN declarou guerra à toda a internet

Modo Noturno

Se você acessou o Twitter nas últimas 48 horas, deve ter visto ou ouvido falar da hashtag #CNNblackmail, criada pra centralizar as críticas à última peripécia da emissora de notícias preferida do Presidente Trump. Após o tweet presidencial de um meme em que Trump “espanca” o canal de TV numa partida de luta-livre, seus repórteres usaram os recursos quase ilimitados de um órgão de imprensa multi-bilionário para… descobrir a identidade do usuário que criou o meme.

A pessoa em questão posta sob a alcunha HanAssholeSolo e admitiu no Reddit ser o autor do meme. Com essa informação, o repórter Andrew Kaczynski chegou à pessoa por trás do username, escrevendo um artigo onde detalha o histórico de postagens “racistas” e “anti-semitas” de HanAssholeSolo, antes de anunciar que, confrontado pela equipe de reportagem, ele pediu desculpas. Mas foi o complemento de Kaczynski que chocou a internet.

“A CNN não irá publicar a identidade de HanAssholeSolo por que ele é um cidadão que fez um extenso pedido de desculpas e demonstrou seu remorso deletando todos os posts ofensivos e por que ele disse que não irá repetir esse comportamento feio nas mídias sociais. Ele também disse que sua declaração pode servir de exemplo para que outros façam o mesmo.

A CNN se reserva ao direito de publicar a sua identidade caso qualquer uma dessas condições mude.”

Sim, é isso mesmo que você leu. A CNN praticamente ameaçou um cidadão comum de expor a sua identidade ao mundo todo, ameaçando sua empregabilidade e status social, só por que ele postou um punhado de memes zoando a emissora na internet. É um recado claro a todos – ande na linha, ou viremos atrás de você também. E nem pense em voltar atrás no pedido de desculpas.

A intimidação e chantagem do repórter, em nome do canal de TV, não repercutiu nada bem, atraindo críticas até de membros de sites ultraliberais como o Vox e o BuzzFeed, pelos quais foi acusado de ameaçar o usuário de “doxing”, a prática de expor a identidade de um usuário de internet, geralmente com o intuito de assediar e envergonhar a vítima. Num meio consagrado pela privacidade e o anonimato, o dox é uma prática odiada quase que universalmente.

O colunista Jonathan Turley, do jornal USA Today, foi ainda mais longe, acusando a CNN de censura e autoritarismo, dizendo que “é a antítese do jornalismo monitorar a liberdade de expressão e decidir quem passou do limite e merece ser arruinado por causa disso”.

O doxing é também algo recorrente no movimento de justiça social, onde a ameaça de expor seus opositores como “machistas” e “racistas” é constante. Quem lembra do caso do estagiário de engenharia brasileiro que perdeu o posto depois que meia dúzia de feministas divulgarem seus posts?

Kaczynski também se enrolou ao tentar se explicar no Twitter, primeiro dizendo que HanAssholeSolo fez o pedido de desculpas antes de ser contactado pela equipe de reportagem, quando no próprio artigo deixa claro que a declaração veio após o confronto. Subsequentemente, após rumores de que o usuário fosse um menino de apenas 15 anos, Kaczynski não hesitou de divulgar ainda mais informações sobre o criador do meme, deixando claro que ele é um homem de meia idade.

Outros empregados e colaboradores da CNN postaram mensagens de apoio à ação de Kaczynski nas redes sociais, mesmo diante de tantas críticas. O caso, porém, ficou ainda mais absurdo quando o BuzzFeed publicou um artigo onde questiona se HanAssholeSolo é o verdadeiro criador do meme compartilhado por Trump, já que no tweet do presidente ele usou um vídeo, enquanto o usuário publicou no Reddit somente um GIF. Ou seja, ele teria apenas inspirado outra pessoa que transformou o GIF em um vídeo com áudio, vídeo este que então foi usado pelo presidente em seu tweet.

Em meio à tensão militar com a Coreia do Norte, Trump ainda não comentou sobre o assunto, mas seu filho Donald Trump Jr. compartilhou informações sobre o ocorrido em seu perfil.

É sem dúvidas um desastre de relações públicas para a CNN, fruto de um senso de justiça e autoritarismo inimaginável. Usar a força de uma mega-corporação multi-bilionária contra um cidadão comum é a própria definição de abuso de poder e tudo motivado por um simples meme, um “crime de pensamento”. Mas não foi só uma tática de intimidação, ao tentar chantagear HanAssholeSolo, a CNN mostrou não entender a cultura da internet, se tornando a inimiga número 1 daqueles que têm na rede o seu refúgio de diversão.

A CNN declarou guerra à própria internet, agora é velha mídia contra nova mídia. E apenas um sairá vivo.