Three: A ressalva do cinema de Hong Kong

Modo Noturno

O mais recente trabalho do diretor Johnnie To, Three, de forma alguma é uma obra de arte estupenda mas apesar de suas falhas é uma lembrança de que To é certamente um salvador do espírito e das raízes do cinema de Hong Kong.

Com um elenco equilibrado contando com os A-listers Louis Koo e Vicki Zhao e em adição atores de apoio e qualidade com nomes como Wallace Chung e Lo Hoi-Pang (um já veterano do cinema asiático), a estória de Three toma vida dentro de um hospital na capital cosmopolita e toma velocidade e fôlego aos poucos. Quando um perigoso criminoso, Shun (Wallace Chung Hon), dá entrada no setor de emergências do hospital com algemas ainda no seu pulso e com uma bala alojada precariamente em sua cabeça, ele é colocado sob a observação médica da neurocirurgiã Tong (Vicki Zhao). Ao recuperar sua consciência, Shun demanda fazer um telefonema para um número específico mas é então esnobado pelo arrogante detetive de polícia Ken (Louis Koo), que está atento aos cúmplices de Shun à solta. Shun está preso no hospital devido à sua lesão mas Ken planeja usar sua imobilidade para determinar o paradeiro de seus comparsas que junto ao criminoso, fizeram um roubo de banco.Logo, a médica responsável, Tong começa a entrar em conflito com Ken devido ao seu tratamento pouco “humano” em relação à Shun. O criminoso obviamente tenta usar este ponto de desequilibrio a seu favor.

O diretor To explora um prático labirinto moral proposto entre um policial e uma médica e com uma estória povoada por personagens de apoio “coloridos” que muitas vezes aparecem na tela sem aviso prévio. O mais notório desses personagens é entregue por Hoi-Pang que faz um cômico paciente com problemas de memória. O elemento tonal de humor e sua inserção ao longo do enredo ajuda a configurar a experiência de Three como mais palpável à realidade funcionando também como um válido alívio cômico. No entanto, o ponto central de conflito entre Tong e Ken é muitas vezes encoberto por estes personagens de apoio o que fere o andamento do longa. E enquanto eles lutam para encobrir seus movimentos errados com medidas desesperadas, as inconsistências narrativas começam a aparecer e incomodar.

Os enigmas morais impostos sobre camadas de pressões emocionais são essenciais para que apesar das inconsistências, o filme funcione. E eles servem também para esconder parte da trama que vai sendo desvendada pouco a pouco pelo espectador. Louis Koo faz o seu típico detetive de polícia da maneira a qual estamos acostumados a vê-lo, em uma performance de uma nota de ferocidade inabalável. Wallace Chung capta o ego furioso de um gângster astuto através de frases de efeito de escritores como Bertrand Russell. E Vicki Zhao domina o restante do filme como uma cirurgiã que é incapaz de reconhecer suas fraquezas e coloca seu orgulho à frente de tudo.

Quando oportunamente escrevi no início do texto que este trabalho de To resgata as raízes do cinema de Hong Kong, quero expressar na verdade que as cenas de ação e suspense presentes, evocam os filmes enlouquecidos e histéricos do auge de Hong Kong, há algumas décadas passadas. O maravilhoso bullet-time está presente e com uma trilha sonora banhada à música erudita e a combinação é um deleite aos sentidos. A qualidade de To é colocada em full-frame com seu típico bullet-time em uma impressionante sequência de cinco minutos em que a câmera do diretor desliza através dos quartos e das salas do hospital e por um grande conjunto de policiais, gangsters, enfermeiras e pacientes enquanto projéteis passam aqui e acolá.

O filme notadamente não é para todos os gostos, o diálogo é rápido e é difícil se ater a muitos detalhes. As inconsistências de Three são tonais e de roteiro, mas como escrito no parágrafo anterior, poucos diretores que trabalham hoje têm a habilidade e autoridade de To. E enquanto é amplamente imitado e muitas vezes comparado a John Woo, ninguém pode negar seu distinto senso de provocação.