Handmaiden: Uma lição sobre cinema

Modo Noturno

The Handmaiden (아가씨) é um tour-de-force de ação, direção e design que trabalha a característica principal do diretor Park Chan-wook, a vingança, plot-twists e intrigas em algo verdadeiramente e profundamente, excepcional e apolíneo. É “saboroso” sob várias óticas. Uma miragem de sabores, torções, cores e reviravoltas misturado em uma espécie de casa de horrores dos prazeres.

Não perca tempo em assistir trailers, ler a sinopse ou críticas….

Basta saber que este filme é inteiramente produzido por Park Chan-Wook o mesmo cara responsável por Oldboy, Sympathy for Mr.Vengeance and Lady Vengeance, Thirst e Joint Security Area entre outros. E que o nome dele a cada novo projeto, sempre está em Cannes. E que Handmaiden levou o prêmio de Prix Vulcain de l’Artiste Technicien do festival de Cannes em 2016 e recebeu mais de 30 indicações em festivais de cinema ao redor do mundo.

O resto? É isso….

Veja o trailer.

Bom, se você ainda quiser ler uma crítica, sinta-se à vontade para conferir logo abaixo.

The Handmaiden (아가씨) é um tour-de-force de ação, direção e design que trabalha a característica principal do diretor Park Chan-wook, a vingança, plot-twists e intrigas em algo verdadeiramente e profundamente, excepcional e apolíneo. É “saboroso” sob várias óticas. Uma miragem de sabores, torções, cores e reviravoltas misturado em uma espécie de casa de horrores dos prazeres.

A premissa do roteiro é misericordiosamente mantida simples e levemente inspirada no argumento do livro de Sarah Waters, Fingersmith. Nos idos de 1930, Sook-hee (Kim Tae-ri), a filha coreana órfã de um ladrão e que é uma sagaz batedora de carteiras, está deixando a casa de um grupo de ladrões que a adotou para se tornar uma maid (espécie de empregada)para Hideko (Kim Min-hee), aparentemente uma inocente jovem japonesa que vive em isolamento com seu tio Kouzuki (Cho Jin-woong) que espera casar com ela e herdar sua enorme riqueza. Sook-hee obviamente tem segundas intenções em um plano elaborado em conjunto com um conde japonês falso (Ha Jung-woo), que também quer se casar com Hideko por seu dinheiro e que ele espera conseguir com a ajuda de Sook-hee. (There… eu não vou escrever sequer mais uma palavra sobre a estória…)

O build-up é sempre algo tão afável com Chan-wook, e sempre sua parte high-concept e ele não nos deixa decepcionados nesta incursão. O grande problema da maioria de projetos ambiciosos como Handmaiden é nunca ter um final tão bom quanto o build-up, mas o filme entrega uma resolução mais que satisfatória. É impressionante como Chan-wook repetidas vezes desde Oldboy estabeleceu esta marca, essa característica, e consegue trabalhá-la com qualidade e sem temor de errar. Acredito que futuros livros didáticos sobre cinema devem mencionar sua estrutura narrativa, a parte do filme que a torna única. Não há muito tempo desperdiçado, tudo se encaixa no final, mas em minha opinião, um pouco mais não incomodaria e com uns 20 minutos a mais dedicados teríamos algo ainda mais brilhante. Você pode pensar que descobriu onde o filme está indo, mas você não vai descobrir como ele vai chegar lá. Não é que Park elimine o óbvio, é que ele recupera o óbvio para uso em outra parte do longa, optando por instalá-lo em lugares inesperados ao invés de removê-lo da estrutura do filme.

O que Handmaiden tem, e de sobra, é estilo. As texturas, os set-designs e os figurinos são ridiculamente exagerados e na medida ao mesmo tempo, as cores são ricas e o trabalho de câmera é soberbo, mas acima de tudo, é a mise-en-sceneé que acrescenta mais do que a soma de suas partes, ostentando o toque audacioso e invulgar de um diretor que permite que a sua estranheza inerente se incline no resultado disposto na tela em conjunto aos talentos de seus atores de primeira linha. O longa é belamente projetado, tem tons de humor apesar de seu assunto sombrio e tem a exposição do sexo de forma altamente fotogênica, que é gráfico, mas nunca grosseiro ou vulgar. E o elemento lésbico é tratado com sensibilidade artística. Esteticamente, o filme é um elogio aos olhos. O olho do diretor para a composição deslumbrante, é ajudado aqui pelo seu diretor de fotografia Chung Chung-hoon, que já trabalhou com ele em outros projetos. Chan-wook tem uma mão assegurada aqui não só com o tom, mas com o gênero, saltando de procedural para um filme de exploração surreal sem realmente perder uma batida do ritmo. A narrativa em si parece linear mas revela-se tortuosa, sem nunca passar a sensação de muito confusa, e a coreografia de ação é de primeira qualidade. Observando qualquer filme de Chan-wook, é fácil reconhecer sua obsessão com a própria obsessão pela perfeição, mas seus fios estruturais de vingança permanecem presos à nossa consciência por força de construção impecável: ele faz filmes horrendos sobre vingança e faz esses filmes terríveis parecerem bonitos.

E o elenco ? A atriz Kim Min-hee empresta à sua personagem, uma sensação distinta de vitalidade e de uma potência típica de uma atriz powerhouse. É sem sombra de dúvida um dos maiores aspectos do filme. Seu desempenho é muito mais matizado do que se poderia esperar deste tipo de exploração-gênero, e o ato final é completamente salvo e elevado graças à sua fisicalidade e profundidade emocional. Cho Jin-woong carrega uma parcela do peso do filme também,e, embora seu personagem, Kouzuki,seja de ações mais restringidas, ele dá-lhe uma energia maníaca e bruta que o transforma em uma verdadeira estrela para um filme que poderia ser processual padrão. Se Handmaiden é, em última instância, difícil de ser descartado por completo como simplesmente um extenso ciclo auto-elaborativo, muito disso pode ser creditado ao desempenho de Cho. Certamente, Jin-woong— assim como o próprio diretor— não se recusa a caracterizar Kouzuki como o bastardo louco que ele é … mas há um pathos genuíno em seus gritos penetrantes de raiva e desespero, uma falta de humanidade no interior nesta alma doente. Em seguida, Kim Tae-ri e Ha Jung-woo completam o elenco apresentando um bom nível de qualidade em suas performances.

Muitos comentaram sobre Handmaiden, de que trata-se apenas de pornografia com um verniz diamantado. Mas o ponto importante a se levar sobre Handmaiden, sua questão derradeira e fundamental é: – Pornografia ou Arte ? A maioria das definições informais e oficiais de pornografia tendem a girar em torno de: atos sexuais explícitos ou nudez extremamente sugestiva sexualmente ou como qualquer material que desperta pensamentos sexuais de forma vulgar e explícita. O problema com tais definições é que eles são um tanto subjetivas e demasiadas inclusivas para fixar as coisas como realmente pornô. Portanto, eis a origem da confusão entre o que é arte e o que é pornografia. A “carnalidade aberta” do filme parece como uma granada de mão, prestes a explodir e é uma objetiva provocação ao espectador. Para este que vos escreve, trata-se de uma arte deliciosa e pervertida assim como as pinturas de Caravaggio.

Chan-wook é um criador de imagens profundas e marcantes. Ele não é um artista, mas pinta a tela com sua câmera. Ele tem uma maneira de colocar uma imagem na tela, cheia de vida ou desprovida dela, e, fazê-la falar com você. A palavra visionário é usada muitas vezes de forma imprópria, mas eu sinto aqui,que certamente esta descrição é a mais correta. A colaboração entre o diretor e sua equipe de efeitos especiais e designers de produção criaram alguns dos mais icônicos e transcendentes looks do cinema. O mesmo é verdadeiro para o trabalho de câmera executado, que muitas vezes introduz ângulos inusitados, mas que funcionam bem em um sentido estético e narrativo. Tão profundas como essas técnicas que sobressaem, elas ainda têm fundações no próprio estudo do cinema e são elevadas a um patamar adiante dos trabalhos de outros diretores.

Acostumado ao amplo uso de gore e de cenas violentas e gráficas para chocar e de priorizar sob a angústia física dos personagens, o diretor alterna seu foco. O longa em questão, favorece o choque do abuso psicológico ao choque da violência e seu deslocamento no foco não impacta visivelmente sua fórmula de contar estórias. E se The Handmaiden carece de representações grotescas na tela, não é de modo algum manso (há ainda várias cenas do tipo inclusas): mas a violência foi substituída pela tortura psicológica. Este último é um instrumento familiar na caixa de ferramentas do diretor mas que agora ele coloca mais em evidência.

A pungência de Handmaiden é sua abordagem mais humanística da estória e o uso de humor negro em conjunto, é algo que ajuda o filme a enraizar-se na memória de seus espectadores. Handmaiden joga com os pontos fortes do diretor de outras formas também, permitindo-lhe capitalizar sobre a sua preferência deliberada, ritmo constante, sua habilidade para explorar o humor negro. A trilha sonora é monumentalmente acoplada ao arrebatamento visual suntuoso.A combinação de visuais e sons criam uma atmosfera de opacidade etérea. O tom e a tactilidade do filme aliados à trilha sonora são válidas recomendações pois enaltecem o talento de Park como um maestro em construir uma “sinfonia” de atmosfera deslumbrante. Não há como escapar do magistral ritmo e conspiração do filme. A maneira como o enredo lentamente se revela, e desabrocha seus segredos, é o que torna os 145 minutos de duração darem a sensação do tempo voar com facilidade e o filme tornar-se entretenimento de grau agradável.

Hoje, o cinema coreano é muito diferente de seu break-out inicial (com Kim Ki-duk e Lee Chang-dong, para citar alguns nomes) que encontrou seus caminhos para o mundo ocidental através de filmes dramáticos, belíssimas paisagens e tons reflexivos. O cinema coreano passou por um fase de somente terror e melodramas após isso chegando aos revenge thrillers brutais cada vez mais afinados. Isso deu lugar à diversidade com a produção de blockbusters e filmes de arthouse. E o mix de ambos. A Coréia tem alguns dos melhores escritores e diretores do mundo e entre eles está Park Chan-Wook, que mais uma vez, nos mostra o que é cinema de verdade.

A cena final, do enquadramento, passando pelo set design às poses perfeitamente dispostas de Kim Min Hee e Kim Tae-Ri, é um sonho pervertido e delicioso para qualquer espectador que ama as artes e a beleza. Handmaiden apresenta grandes desempenhos por parte dos atores, voltas de suspense, trágicos surtos e uma profundidade emocional que ultrapassa o blasé. É também encantador e emocionante com a sua estória convincente. O longa vale um replay, e ele é necessário, para que se possa apreciar plenamente o contexto e as técnicas que são mostrados ao longo de sua duração. Chan-wook nunca foi um estranho por brincar com o processo de pensamento do seu público e emoções —Handmaiden não é exceção e pode ser considerado o somatório e o refinamento de cada elemento integrante do estilo de Park como diretor.